Publicado por Ana Farias em 14.jun.2018

Não podemos só culpar o sistema

Não sei quantos de vocês sabem, mas eu estudo Serviço Social e a Mich, enfermagem. Qual a relação disso? As duas buscam cuidar de pessoas e o FANS foi indiretamente o responsável por essa nossa descoberta. O que explica a gente já ter tido uma equipe enorme e hoje estarmos só nós duas ativas, sem desistir, buscando a continua formação dos que passam por aqui. Encontramos com tantas pessoas nessa nossa trajetória, pessoas de diferentes classes, mas que possuem algo em comum, indiferente do CEP que tenham: empatia. Esse sentimento que faz a gente querer continuar.

Por isso para gente não faz muito sentido generalizar dizendo que os privilegiados são ‘culpados’ na construção desse sistema que vivemos hoje. Ou que tudo seja uma questão de ‘mérito’, quando na verdade se trata de ter acesso. Muitos podem sim estar nesse recorte de culpados, mas alguns muitos podem não estar. Como a gente afirma isso? Quando entramos no espaço da elite e encontramos pessoas (da elite e em sua maioria branca) com pensamentos de inclusão e com ações que tentam amenizar essas não ações do Estado, ou seja, com empatia.

São essas pessoas que mostram que não importa qual o cenário você viva e sim como você escolhe viver, porque tendo nascido no conforto, optar por esse conforto sempre será mais fácil. No entanto, é necessário ter em mente que esse conforto pode ser usado para comprar a briga de quem não pode, a briga da minoria, pelo simples fato de que dentro do seu privilégio você será ouvido. A pergunta é queremos? Porque isso implica mudar hábitos e gerar discussões em núcleos que nem sempre são confortáveis. Sair da sua bolha e se colocar no lugar do outro, buscar que o outro tenha acesso à direitos deveria ser comum. Atuar com empatia deveria ser normal, e não uma exceção.

Eu e Mich temos consciência de que se não fosse pelo FANS a nossa amizade não seria possível. Posso listar coisas que justifiquem isso, e desculpem se essas pontuações incomodarem vocês. Mesmo que a internet tenha feito esse encontro possível, vários recortes poderiam ter feito não funcionar se a gente acreditasse nesses muros impostos pelo sistema. Moramos em zonas extremas da cidade. Somos de religiões com conceitos diferentes. Somos de raças diferentes. Só funciona porque a gente sempre foi aberta uma com a outra e porque nenhum desses recortes que a sociedade tenta empurrar para gente, todos os dias e desde sempre, foi maior do que a gente acredita ser a maneira certa de viver.

Quando esbarrarmos com pessoas que ignoram esses recortes e buscam essa igualdade de direitos devemos trocar o máximo possível, para que seja possível construir uma relação de emponderamento. É preciso mostrar que há vida fora da nossa bolha, que não é porque as pessoas sempre tiveram acesso a tudo que não podem pensar e agir de forma a fazer valer os direitos dos que não tiveram. É preciso encontrar uma maneira de mostrar para esse sistema cada vez mais excludente que enquanto existir pessoas lutando por direitos eles continuarão existindo.

Que não é uma questão de querer ou não querer chegar a determinado espaço, é questão de poder chegar. Podemos citar coisas bem simples, e supérfluas que traduzem essa nossa afirmação. Vocês acham que as pessoas que em um show, compram o setor VIP, todas pertencem as classes mais privilegiadas da sociedade? Não. Há quem precisou juntar cada centavo daquele ingresso por anos, se privando de saídas com os amigos, lanches na escola, balas no metrô/trem. Há quem tenha ganho de presente ou mesmo só tenha pedido aos pais porque queria ir no evento. O inverso acontece nos setores mais baratos. O mesmo acontece em jogos de futebol.

Ninguém num estádio, ou em uma casa de show, merece mais ou menos que ninguém estar ali. Todos os presentes, estão porque tiveram acesso de alguma forma à essa diversão, algo proposto na Constituição de 1988, no art 6º

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 90, de 2015)

A questão é que no lazer, ainda que se pague diferentes valores, o produto possui a mesma qualidade, o produto final é o mesmo. Isso não acontece na educação e na saúde. Nesses setores o acesso precisa ser mais relevante que o acesso, não podemos dizer que o aluno da escola pública não chegou a faculdade porque não estudou quando ele sofre com deficiência de professores e de estrutura.

Por isso que vive no privilégio, mesmo que ele seja pequeno, precisa ter essa consciência e buscar ações que diminuam essa curva de diferenças sociais vivemos. Curvas que foram implantadas pelo sistema e a cada dia acabam se fortalecendo por pessoas que não conseguem enxergar o que é privilégio.

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