Redundância do invisível

O que percebemos nos últimos dias? Estamos falando mais sobre inclusão e racismo que no ano passado, e vocês não imaginam o quanto isso é importante para gente. Primeiro porque acreditamos muito que falar sobre é gerar conhecimento ou pelo menos aquela pulguinha atrás da orelha que faz a gente ficar pensando por um tempo sobre o assunto.

Pensar sobre assuntos que não conhecemos bem pode fazer a gente entender o outro lado, e no final se a gente não mudar a nossa opinião, pelo menos vamos entender o outro lado. Porque mais que aceitar o diferente, é sobre RESPEITO que sempre falamos.

Tautologia do invisível

“Estou bebendo um café no aeroporto Santos Dumont, quando um garoto negro se aproxima e pergunta: “moça, pode comprar uma bala pra me ajudar?”
Enquanto pego a carteira, um segurança, também negro, se aproxima e pede para o garoto sair. Foi gentil, mas pediu que o menino saísse. Comprei a bala e depois vi o garoto se afastar. O que os amantes de fórmulas simples vão dizer? “O negro oprime o próprio negro”. O segurança cumpre ordens, o garoto, num país de 354 anos de escravidão e estruturalmente racista, sequer foi alçado à condição de humano. No fim do dia, provavelmente, tanto o segurança quanto o garoto vão pegar o mesmo ônibus para voltar pra casa rezando para não levar batida da polícia enquanto seus inquisidores fingem que os dois não são oprimidos pelo mesmo senhor.
Enquanto isso, uma voz de mulher, em três idiomas, comunica no aeroporto para que os viajantes não deem dinheiro para as crianças porque o lugar delas é na escola. E os viajantes seguem seus destinos fingindo não perceber que só existiu capitão do mato porque existiu senhor de engenho.”

Depoimento por Djamila Ribeiro.

Michele Lima postou isto no dia 18 de julho de 2017.


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