Publicado por Michele Lima em 06.jul.2017

Djamila Ribeiro: O mito da mulher moderna

Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, comenta o que chama de “eterno feminino”, imposições criadas acerca do “ser mulher” em nossa sociedade, comportamentos esperados baseados numa visão determinista. A visão, por exemplo, de que mulheres são naturalmente frágeis, maternais, sensíveis, ligadas ao ambiente domésticoEssas conversas que a gente não aguenta mais, mas que precisamos ter porque ainda encontramos muitos com mente pequena e vivendo na sociedade antiga ainda.

No mesmo livro, Beauvoir fala da importância de não pensarmos a situação em termos de felicidade, mas de oportunidades concretas. Numa sociedade machista, o ideal de felicidade também carrega esses valores. Quando partimos da condição concreta, conseguimos de fato explicitar as desigualdades e apontar o menor número de possibilidades oferecidas às mulheres. Quando apontamos pontos e exemplificamos quem tem essa opinião ‘torta’ entende ou respeita melhor o que estamos dizendo, mostrando sobre o “ser mulher”.

Em dado momento, Beauvoir fala da “mulher moderna”, assim entre aspas, pois em relação à definição também foi criado um modelo. Nos anos 1950, as revistas publicavam propagandas de donas de casa com seus aspiradores de pó e eletrodomésticos como a representação da mulher moderna e feliz.

Quando se atualiza a preocupação de Beauvoir, podemos apontar diversas propagandas que glorificam a mulher moderna, aquela que consegue dar conta de tudo e ainda manter um sorriso no rosto. Ela trabalha, é bem-sucedida, cuida da casa, dos filhos e consegue estar bonita – leia-se magra, para o marido. De fato, o que mudou?

Há aqui a confusão de atrelar valores democráticos a valores capitalistas. De confundir emancipação com ascensão econômica. Ela trabalha fora, mas quando chega em casa ainda é responsável por cuidar dos filhos e precisa se ocupar dos afazeres domésticos. A mentalidade de fato não mudou, os mecanismos de opressão tão somente se atualizaram e é isso que a nossa sociedade não gosta de admitir.

Ainda vale ressaltar que não é porque uma mulher é bem-sucedida que ela possui os mesmos direitos que o homem branco, e que se ela for pobre essa distância de igualdade de direitos é ainda maior. Nem vamos comentar o abismo que existe caso ela seja negra.

Para Beauvoir e diversas feministas negras como Angela Davis, a emancipação precisa ser radical. Não é emancipação iludir-se com novas tecnologias, enquanto persiste a divisão sexual do trabalho, enquanto o eterno feminino se impõe. E muito menos seguir numa lógica de exclusão com outros grupos. Nesse sentido, é preciso cuidar para que os conceitos e ferramentas políticas pensadas por feministas diversas não sejam esvaziados de sentido. Atentar-se para o interesse de marcas com a questão – na maioria das vezes, superficial e temporário.

Lutar por direitos é muito além que apenas escolher uma camiseta “Girl Power” e sair pelas ruas. Obviamente, existe uma relação dialética: se hoje há um interesse maior por essas pautas, é porque os movimentos ao longo da história têm conseguido tirar das sombras questões extremamente importantes. E não estamos aqui para criar polêmica sobre nada, queremos apenas que vocês entendam que essa luta é muito maior e que falar é importante para que mudanças sejam feitas efetivamente!

Há de se cuidar, no entanto, para não ocorrer uma apropriação puramente mercadológica e incapaz de produzir mudanças de fato. Em outras palavras, é urgente pensar para além da representatividade, inegavelmente importante, mas cheia de limites. Pensar feminismos é pensar projetos. É discutir outro modelo de sociedade pautado em novos marcos civilizatórios. Essa é a utopia pensada por Davis que precisamos almejar.

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