diario sgffc

Hoje estamos começando com mais uma série de colunas semanais fixas. Com o Diário Voluntário, nossas narradoras irão contar suas experiências vividas enquanto voluntárias, não importa onde, afim de fazer vocês conhecerem um pouco mais dessa ação que faz bem a todos os envolvidos.

Fevereiro de 2013

Sempre quis fazer algo relacionado a voluntariado, e poderia envolver qualquer coisa, crianças, cachorros, idosos. Qualquer coisa em que eu pudesse ser realmente útil e pudesse dar algo e que ninguém sentisse a obrigação de me dar em troca. Porque fazer algo de boa vontade e alguém se sentir obrigado a ter que lhe retribuir não é lá um dos melhores feedbacks. Se eu quero ajudar eu quero, pronto e acabou.
Quando eu descobri mais sobre o SG Fans For Change, a primeira coisa que eu pensei foi em fazer parte de alguma maneira deste projeto e a primeira pesquisa relacionada que eu fiz foi sobre orfanatos que haviam em Salvador, e, para a minha surpresa, havia um ao lado da minha casa. Literalmente. E morando no mesmo lugar há quase dois anos, eu nunca havia percebido o que era aquele lugar. Passava por eles todos os dias e nunca tinha percebido o alvará da prefeitura na parede do orfanato.
Assim que eu descobri que ali era o orfanato, Lar da Criança, eu tratei de ir lá no dia seguinte sem nem pensar duas vezes, e eu não tinha a mínima ideia do que fazer ao chegar lá. Na verdade eu estava com medo do que fosse encontrar, já que eu nunca havia entrado em um orfanato antes, nem sequer sabia como funcionava. Acabou que eu fui ao local e conversei com uma das voluntárias que trabalhava lá sobre o assunto que eu queria tratar com a diretora, que era sobre o projeto SGFFC e sobre o que eu queria fazer com as crianças dali. A diretora não estava, e nem a assistente social (descobri que também poderia falar com ela à respeito), então decidi voltar no dia seguinte.
Quando voltei no dia seguinte descobri que estava em horário de visita porque, claro, em todos os locais tem regras e horários a serem cumpridos, e o horário de visitas do orfanato começa às 14h e termina às 17h. Assim que eu entrei lá eu vi uma grande mesa com dois largos bancos e, logo mais a frente, “a sala da tv”, que nada mais é um local onde tem um sofá grande, um médio e um pequeno, velho e gasto, uma tv bem grande e alguns dvd’s sobre ela. Tinha apenas uma criança, que tinha uns dois anos, e assim que ele me viu ele me encarou e levantou os braços. Me sentei ao lado dele e coloquei ele no colo, mas ele não falava nada, era calado, fechado. Logo descobri que o seu nome era Levi, e que ele não falava muito, na verdade quase nada.
Fiquei um pouco com o Levi tentando tirar algo dele, uma risada que fosse, mas ele era quieto, extremamente e estranhamente quieto. Uma das voluntárias chegou e começamos a conversar e eu a perguntei por que eu não estava vendo outras crianças no local e ela me afirmou que todas estavam dormindo. Logo depois eu descobri que havia um berçário ali (duh), e óbvio, com a minha paixão insana por bebês eu a perguntei se poderia visita-los e ela falou que sim.
O berçário nada mais é do que um quarto, relativamente grande, com cinco berços e cinco bebês. Dani, Esther, Fernando, Davi e George. Todos com menos de 1 ano. Todos lindos e saudáveis e sorridentes. Confesso que a imagem que eu tinha de orfanatos eram totalmente contrária ao que eu havia encontrado até aquele momento e que, sim, era um estereótipo. Não irei chegar muito adentro sobre o berçário, depois eu falo mais dele, o que interessa é que eu fiquei por muito tempo ali dentro, até que de repente a porta se abre e uma criança me pergunta “A Tia Denise está aqui?”, respondi que não. Só depois que ela saiu, eu me lembrei de onde eu estava e o real motivo de eu estar lá, que era o projeto. Naquele momento eu já estava com todos os bebês no chão e com o recém-nascido no colo. O quarto já estava uma bagunça. Arrumei tudo, coloquei todos os bebês em seus devidos berços, cada um tinha o seu berço com o seu nome em cima, e me dirigi novamente a sala de tv. Assim que eu cheguei lá, me deparei com umas 12 crianças assistindo a um dvd e assim que elas me viram, algumas vieram a minha direção e me bombardearam de perguntas.
Como é seu nome? Quem é você? Quantos anos você tem? Porque você está aqui? Algumas outras me perguntaram várias vezes qual era o meu nome, outras perguntavam O quê? Porque não tinham entendido o que eu tinha respondido ou não tinham ouvido ou simplesmente porque elas adoram perguntar “o que”.
Depois de muitas perguntas não entendidas e não respondidas, muitas conversas sem sentido, muitas crianças jogadas no meu colo, uma das voluntárias veio me dizer que o horário de visitas já havia acabado e que eu tinha que ir embora. Eu não queria ir embora, mas o que eu poderia fazer a não ser obedecer. Enquanto eu caminhava para a saída, algumas crianças me acompanharam me enchendo de perguntas do tipo Porque você está indo embora? Onde fica a sua casa? Cadê a sua mãe?
Algumas dessas perguntas que me deixavam mexida e sem muita vontade de responder por não saber qual seria a reação deles, porque, novamente tinha a ideia errada de quase tudo. A verdade é que todos eles eram inteligentes demais para a minha ignorância, e no fim, eu percebi que eles não ligavam muito para a resposta. Poderia ser Estou indo para casa ou Sim, minha mãe está esperando, eles não ligavam pra resposta, eles só queriam um pouco de atenção. Após 10 meses os visitando quase que como uma rotina, eu percebi o quanto é difícil dividir a atenção de oito voluntárias com o próprio trabalho delas e com outras duas dúzias de outras crianças.
Saí daquele orfanato naquele dia sem ter feito nada do que eu deveria ter e ao mesmo tempo fazendo tudo o que eu queria fazer a muito tempo. E não apenas havia virado amigas de vários meios humanos, como também havia virado tia de muitos.

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Michele Lima postou isto no dia 16 de dezembro de 2013.


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