Não sei quantos dos nossos leitores fazem ou conhecem um pouco o que é ser voluntário. Mas eu comecei a ver de perto o que é ser voluntário e toda a responsabilidade desse trabalho, em julho de 2013. Desde então a cada semana é uma descoberta nova, uma nova experiência. O que estou compartilhando hoje com vocês é recente, e de verdade espero que façam vocês refletirem.

Aguentar e Não Chorar

Desde que eu comecei a trabalhar na Casa Ronald como voluntária já vi tantas coisas. Coisas ruins, como a forma que algumas mães tratam os filhos. Coisas boas, como crianças tagarelas em dia de quimio. Mesmo que existam coisas ruins, são as boas que eu sempre lembro e compartilho. Já me peguei rindo, sozinha, lembrando das bagunças ou das pérolas que Dani ou Fê já soltaram, por exemplo.

Desde o treinamento sempre soube que é preciso ser forte, porque nós estaríamos lidando com crianças que sofrem com câncer, que precisaríamos ser mais ouvidos que qualquer outra coisa na casa. Cada plantão de voluntários tem um número de pessoas que dedicam 3 horas da sua semana na casa. Há plantões mais cheios, outros com o número bem reduzido. Queria que mais pessoas entendessem a importância de estar ali, de ser voluntário. Só assim o acontecido que eu estou para compartilhar com vocês talvez deixasse de acontecer.

Em um plantão com – acho – 11 voluntários, por motivos de férias e outros compromissos, só aparecem 5. Casa cheia, hóspedes novos, muitas tarefas. Reposição é feita, assim como a troca de roupa de cama e a entrega de fraldas. Jantar servido. Tudo lindamente funcionando até que chega o momento mais esperado, recreação. Todas as crianças felizes e sorrindo. Até que alguém bate na porta da sala de voluntários, com um pedido simples “Tia, você pode abrir a biblioteca?“. A resposta imediata na minha cabeça foi um sim, mas essa resposta não depende só do meu querer. Com a casa cheia e poucos voluntários fui instruída à dizer não, nunca doeu tanto dizer isso. Para amenizar a situação expliquei os motivos, disse que podíamos ler na recreação. Foi quando eu ouvi “não dá, eu não posso” e a amiguinha dela “ela está transplantada“, e nesse instante eu sem ter o que dizer.

Entrei, perguntei de novo… e não mudaram a resposta. Sei que não mudariam, mas tive uma esperança. Muitas crianças e poucos voluntários, não tinha como nos dividirmos. E assim eu volto à porta, e com a mesma resposta. Vendo a mesma carinha de decepção. Aprendendo como controlar a respiração e esconder as lágrimas.

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Ana Farias postou isto no dia 03 de fevereiro de 2014.


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