Publicado por Ana Farias em 19.jul.2018

A cultura do gênero

Sim, estamos falando da Novela “As aventuras de Poliana” mais uma vez, porque acreditamos que alguns dos temas abordados precisam ser debatidos e até mesmo agradecer por estarem sendo debatidos em uma linguagem mais simples, para realmente educar os/as pequenos/as. Ainda que público foco da novela seja em sua maioria infantil, é entre adolescentes e adultos que essa percepção de temas acaba acontecendo de forma mais evidente.

Hoje abrimos espaço para conversar sobre as irmãs Lorena e Raquel, personagens da Pietra Quintela e da Isabella ( Bel ♥ ) Moreira. Contextualizando melhor para quem não assiste, as duas meninas são primas de Poliana (Sophia Valverde), mas até o momento ainda não sabem disso, e vivem com o pai, Durval.

Durval é a representatividade de um homem conservador e tradicional, ainda que em alguns momentos mostre ter consciência de que homens e mulheres podem ocupar espaços iguais. Percebemos o seu lado tradicional quando ele se torna super protetor com a filha mais velha, sem se preocupar com o fato de falas/atitudes possam colocá-la em situações de “desconfortáveis” e/ou fazer com que ela passe vergonha. Em contrapartida quando a caçula Lorena passa por situações de exclusão por ser a única menina em um grupo de meninos, ele se posiciona quanto ao direito da menina poder brincar com os meninos, ainda que de forma singela.

Uma matéria do Estadão¹ sobre essa questão traz pontos importantes que valem a nossa atenção, principalmente ao comentar que esses comportamentos de separação de gênero são culturais. “Diferente do que o senso comum diz, os comportamentos que supostamente diferem meninos de meninas não são naturais ou biológicos. O estudo feito na Suécia mostra que os adultos têm influência sobre como as crianças percebem e lidam com os gêneros. A prática, porém, é inconsciente.”

As questões enfrentadas pela pequena Lorena são atuais, uns anos atrás essas questões seriam apenas tratadas como mais uma brincadeira entre crianças e adultos achando “normal”. A menina mesmo nunca enxergou essa diferença entre homens e mulheres, a relação construída com seu amigo/vizinho Mário nunca foi diferente por ela ser menina. O que mudou quando dois meninos se mudam para o bairro, Mário e eles formam um clubinho e deixam Lorena de fora, por ela ser menina.

Um dos meninos, com seu comportamento de líder do grupo, acredita que meninas não podem fazer as mesmas coisas que os meninos e por isso ela não pode fazer parte do grupo deles. O problema, ao meu ver, se agrava quando os pais de ambos não percebem essa situação como um preconceito e a menina sem saber como se impor, simplesmente sofre sem se posicionar sobre a situação. Ainda que já tenha escutado da irmã o quão importante e inteligente ela é sendo ela mesma, que ela pode arranjar amigos/as que a valorizem, a menina escolhe se fantasiar e se passar de menino para conseguir ser amiga dos meninos. Só que quando esse disfarce é descoberto ela é desafiada e fazer diferentes tarefas para mostrar que merece andar com eles.

Quando a personagem em um desses desafios é colocada em um cenário de perigo é que a menina percebe que não está certo toda essa situação. Ela sabe ter feito algo errado, muito errado na verdade, mas não fica claro que ela não precisaria estar fazendo isso na cabeça dela. Só que essa novela tem umas mulheres bem marcantes e uma delas é a Raquel, a irmã da Lorena. Para fazer essa ponte de igualdade de gêneros em uma linguagem bem simples temos uma cena linda (colocamos aqui para vocês conferirem), de muita cumplicidade entre as irmãs e uma fala emblemática “se seus amigos exigem provas para aceitar a sua amizade, eles não te merecem”.

Não sei muito bem se a pequena Pietra Quintela tem noção do quão importante é o personagem dela para meninas hoje, mas esperamos que sim e inclusive que em algum momento essa discussão de igualdade de gênero seja abordada com mais clareza. De qualquer forma, vale a discussão. Vale a gente levantar esse tema, porque as crianças precisam crescer entendendo que essa separação entre meninos e meninas não faz o menor sentido.

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